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NegóciosArtigoDados com fonte declarada

D2C para pequena indústria: como vender direto ao consumidor sem brigar com o revendedor

Em resumo

Vender direto ao consumidor (D2C) dá à pequena indústria margem e dados, mas pode afastar o revendedor que hoje paga as contas. O ConnectWeek mostra como montar uma política de preço entre canais que respeita a lei da concorrência, que papel dar à loja própria e como medir se o canal direto soma ou só desloca venda.

A pequena indústria pode vender direto ao consumidor sem brigar com o revendedor quando trata o D2C como canal com papel próprio, e não como atalho para vender mais barato. Três regras evitam a maior parte do conflito: a loja direta não pratica preço abaixo do preço sugerido que a marca divulga aos revendedores; ela fica com o que o varejo não faz bem, como lançamento, linha completa, kit exclusivo e região sem revenda; e o sucesso do canal é medido pela venda total da marca, não pelo faturamento da loja própria. O que a indústria não pode fazer é obrigar o revendedor a seguir o preço dela: a lei da concorrência trata essa imposição como infração.

O que muda quando a indústria vende direto?

Vender para o revendedor é vender caixa fechada, com prazo, para um cliente que conhece o produto. Vender para o consumidor é vender unidade, à vista ou parcelado, para alguém que vai comparar fotos, perguntar sobre tamanho, pedir troca e reclamar do atraso. A margem que antes ficava no varejo vem para a fábrica, mas chega acompanhada de uma lista de custos que a fábrica não tinha:

ItemVenda ao revendedorVenda direta ao consumidor
Pedido típicoCaixas ou paletes, poucas notasUma a três unidades por nota
FreteDiluído no volume ou pago pelo clientePor pacote, muitas vezes subsidiado
EmbalagemEmbalagem de transporteEmbalagem individual que aguenta a transportadora
AtendimentoRepresentante comercialChat, e-mail e redes sociais, inclusive à noite
Troca e devoluçãoNegociada com o lojistaPedido a pedido, com prazo de arrependimento
MarketingMaterial de ponto de vendaMídia paga para trazer cada visitante

Por isso a primeira conta é por pedido. Uma regra prática: some frete médio, embalagem, comissão do meio de pagamento, custo de atendimento por pedido, devolução esperada e mídia por pedido, e compare com a diferença entre o preço ao consumidor e o preço de fábrica. Se o que sobra for pequeno, a loja direta ainda pode valer pelo dado e pela marca, mas não deve ser vendida internamente como fonte de margem.

Por que o revendedor se sente ameaçado?

O medo do revendedor tem fundamento em três situações concretas. A primeira é o preço: se a fábrica anuncia na própria loja um valor abaixo do que o lojista consegue praticar com a margem que recebe, o cliente pesquisa, encontra o preço menor e o lojista perde a venda e a confiança. A segunda é a disponibilidade: lançamentos que aparecem primeiro, ou só, na loja da fábrica. A terceira é o cliente: o lojista teme que a fábrica use a venda direta para conhecer e abordar a clientela dele.

Cada uma dessas situações tem uma resposta de política comercial, e é a política escrita, enviada aos revendedores antes de a loja abrir, que reduz o conflito. A loja direta aberta sem aviso costuma provocar o efeito contrário: o revendedor tira a marca da vitrine, ou passa a empurrar a concorrente, antes que o canal direto tenha volume para compensar.

O limite legal: preço sugerido, sim; preço imposto, não

A tentação natural é resolver o conflito exigindo que todos pratiquem o mesmo preço. A Lei nº 12.529/2011 lista entre as condutas que caracterizam infração da ordem econômica, quando produzem os efeitos previstos no próprio art. 36, como limitar a concorrência, obrigar quem distribui, revende ou representa o produto a seguir um preço de revenda, um desconto, uma margem, um prazo ou outra condição na venda a terceiros (art. 36, § 3º, IX). O Cade, autarquia que aplica essa lei, já condenou a fixação de preço mínimo de revenda e registrou que, para ser lícita, a empresa precisa provar ganho de eficiência econômica com a medida.

Na prática, isso separa o que a pequena indústria pode e não pode fazer:

  • Pode: divulgar preço sugerido ao consumidor; definir o próprio preço na loja direta; manter o preço da loja direta igual ou acima do sugerido; escolher com quem trabalha com base em critérios objetivos e escritos, como exposição, atendimento e pós-venda.
  • Não deve: ameaçar cortar o fornecimento de quem vender abaixo de um valor; exigir margem mínima; combinar preço entre revendedores; punir o lojista que deu desconto.

Quem tem dúvida sobre uma cláusula específica deve levá-la a um advogado com experiência em direito concorrencial antes de mandar o contrato aos revendedores. Política de preço da própria loja é decisão livre; controle do preço alheio é zona de risco.

Como dar a cada canal um papel

A pergunta útil não é qual canal vende mais, e sim o que cada canal faz melhor. Uma divisão comum para a pequena indústria:

CanalPapelO que evitar
Revendedor físicoExperimentação, giro de linha principal, venda de impulsoDeixar sem lançamento ou sem material
Loja virtual da marcaLinha completa, lançamento, kit exclusivo, regiões sem revenda, assinaturaPreço abaixo do sugerido e frete grátis que o lojista não consegue igualar
Marketplace com conta da marcaAlcance e prova social com avaliaçõesDisputar a mesma busca com o próprio revendedor no mesmo anúncio
Venda B2B pela lojaPedidos pequenos de lojistas novos (a conta de preço para CNPJ está em marketplace B2B)Atender cliente da carteira do representante sem regra de comissão

A escolha entre marketplace e loja própria, com a conta de cada um, está no guia marketplace ou loja própria. Para a indústria, o ponto extra é que o marketplace junta no mesmo resultado de busca o anúncio da fábrica e o do revendedor; por isso muitas marcas preferem deixar o marketplace para os revendedores autorizados e concentrar o canal direto na loja própria.

Mecanismos que transformam o revendedor em aliado

  1. Comissão territorial. Pedido da loja direta entregue na área de um revendedor gera crédito a ele, em percentual combinado. Custa margem, mas compra paz e mantém a marca na vitrine.
  2. Retirada na loja parceira. O cliente compra no site e retira no revendedor, que ganha visita e chance de venda adicional.
  3. Exclusivo de verdade. Produto exclusivo da loja direta deve ser kit, tamanho ou edição que o varejo não teria interesse em estocar, e não o item mais vendido da linha.
  4. Calendário combinado. Campanhas da loja direta avisadas com antecedência, com a mesma condição oferecida a quem quiser aderir.
  5. Dados devolvidos. Relatório periódico, sem dado pessoal de clientes, mostrando a demanda por região: o lojista descobre o que deveria ter em estoque.

Como medir se o D2C soma ou só desloca venda?

O faturamento da loja própria engana, porque uma parte dele teria acontecido no revendedor. A métrica certa é a venda total da marca, somando sell-out dos revendedores, quando eles informam, e venda direta. Um teste simples: escolha regiões parecidas, divulgue a loja direta em parte delas e compare a evolução da venda total nos dois grupos por dois ou três meses. Se a venda direta cresce e o sell-out do revendedor cai na mesma medida, o canal só trocou o caixa de lugar e ainda trouxe custo de operação.

Outros números para acompanhar mês a mês: parcela de clientes novos na loja direta, ticket e margem de contribuição por pedido, taxa de recompra e reclamações de revendedores registradas pelo comercial. A ferramenta de precificação por canal ajuda a conferir se o preço sugerido deixa margem ao revendedor e à loja direta ao mesmo tempo.

Checklist antes de abrir a loja direta

  • Conta por pedido feita com frete, embalagem, pagamento, atendimento, devolução e mídia.
  • Política comercial escrita, com preço sugerido e regra de preço da loja direta.
  • Revendedores avisados antes do lançamento, com a política em mãos.
  • Papel de cada canal definido, inclusive marketplace e pedidos B2B.
  • Regra de comissão ou retirada para pedidos na área de revendedores.
  • Prazo de troca, atendimento e entrega testados com pedidos reais antes da divulgação.
  • Métrica de venda total da marca acompanhada desde o primeiro mês.

O tema também está na agenda de eventos do setor: o encontro do ECBR Summit Indústria, marcado para 28 de outubro em São Paulo, reúne fabricantes que estão montando a venda direta. Levar a política de canal já escrita ajuda a comparar a própria decisão com a de quem já passou por ela.

Fonte: Cade — Cade condena SKF por fixação de preço de revenda

Perguntas frequentes

O que é D2C?

D2C (direct to consumer) é o modelo em que o fabricante vende ao consumidor final sem passar por distribuidor ou varejista, em geral por loja virtual própria, marketplace com conta da marca ou vendas por assinatura. A indústria passa a cuidar de preço ao consumidor, atendimento, entrega e troca.

A indústria pode obrigar o revendedor a cobrar o mesmo preço da loja própria?

Não. A Lei nº 12.529/2011 (art. 36, § 3º, IX) lista a imposição de preço de revenda, desconto ou margem a distribuidores e varejistas entre as condutas que caracterizam infração quando produzem os efeitos descritos no art. 36, e o Cade já condenou a fixação de preço mínimo de revenda quando a empresa não provou ganho de eficiência. O fabricante pode publicar preço sugerido e controlar o próprio preço na loja direta.

Como evitar que a loja própria tire venda do revendedor?

Com papel definido para cada canal: a loja própria fica com lançamentos, kits exclusivos, linha completa e regiões sem revenda, e não pratica preço abaixo do sugerido. Comissão ou repasse ao revendedor da região e encaminhamento de pedidos B2B também reduzem o atrito.

Quanto a indústria ganha a mais vendendo direto?

Ganha a margem que ficava com o varejo, mas passa a pagar frete, embalagem individual, comissão de meio de pagamento, atendimento, devolução e marketing. Em muitos casos a margem extra encolhe para poucos pontos percentuais; a conta deve ser feita por pedido, e não pela diferença entre preço de fábrica e preço de prateleira.

Como saber se o D2C está somando venda ou só deslocando?

Comparando a venda total da marca nas regiões onde a loja direta foi divulgada com regiões semelhantes onde não foi, antes e depois. Se o canal direto cresce e o sell-out dos revendedores cai na mesma proporção, ele só mudou o lugar da venda.

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