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Código de conduta de evento: para que serve, o que três códigos preveem e como receber denúncia
Em resumo
Código de conduta de evento é o documento que diz qual comportamento a organização não aceita, para quem a regra vale e a quem recorrer em caso de assédio. O ConnectWeek comparou os códigos de três eventos de tecnologia: The Developer's Conference, Agile Trends e PyCon US. Mostra o que os três têm em comum, o que aparece em só um ou dois deles e como a PyCon US recebe denúncias durante o evento.
Código de conduta de evento é o documento em que a organização declara que comportamento não aceita, a quem a regra se aplica, o que acontece com quem a descumpre e a quem a pessoa deve recorrer se for assediada. Nos três códigos lidos pelo ConnectWeek, ele vale para o público, para quem palestra e para quem expõe; cada um acrescenta outros grupos, como patrocinadores ou voluntários.
Em 13 de outubro de 2026, o ConnectWeek leu os códigos de conduta de três eventos de tecnologia: o do The Developer's Conference (TDC) e o do Agile Trends, brasileiros, e o da PyCon US, conferência sobre a linguagem de programação Python realizada pela Python Software Foundation. Leu também os dois procedimentos que a PyCon US publica para receber e tratar denúncias. Este texto mostra o que os três códigos têm em comum e o que aparece em só um ou dois deles. Ele não reproduz nenhum dos documentos nem serve de modelo de redação: cita poucas regras de cada um, como exemplo, e os links levam aos originais. Assédio e discriminação têm tratamento em lei, tema que este texto não aborda e que cabe a um advogado.
Para que serve um código de conduta de evento
Os três documentos dizem para que existem. O código do The Developer's Conference, evento de tecnologia organizado pela Globalcode, e o do Agile Trends, conferência voltada a profissionais que praticam métodos ágeis, declaram o objetivo de proteger o público de danos morais. O código da PyCon US, escrito em inglês, diz querer que todas as pessoas presentes tenham uma boa experiência e declara que existe para deixar claro o que se espera de cada uma.
Um código de conduta também avisa, antes do evento, que medidas a organização declara que pode tomar. Os três preveem a retirada da pessoa sem reembolso. Com a regra publicada, quem compra o ingresso, monta um estande ou sobe ao palco conhece essas medidas de antemão.
Nenhum dos textos cita lei que obrigue um evento a ter código de conduta. Todos vêm de eventos de tecnologia. Na avaliação do ConnectWeek, a prática serve a outros eventos de negócios. As regras-padrão de hackathon da Major League Hacking, liga de hackathons estudantis, têm como primeiro item a concordância dos participantes com o código de conduta da liga; o resumo dessas regras está em Hackathon: como funciona, como montar o time e o que os jurados avaliam.
O que os três códigos têm em comum
Lidos lado a lado, o código do TDC, o código do Agile Trends e o da PyCon US coincidem em três pontos.
A regra vale além da plateia. Os três incluem quem palestra e quem expõe. Os dois códigos brasileiros citam também patrocinadores, fornecedores e parceiros. O da PyCon US lista a equipe, os organizadores e os voluntários.
O que acontece com quem descumpre. Nos três, quem recebe o pedido para parar deve parar na hora. Os três deixam a escolha da medida com a organização e citam o aviso à pessoa e a retirada do evento sem reembolso. Os códigos do TDC e do Agile Trends preveem ainda a proibição de participar de eventos futuros da mesma organização, e o da PyCon US fala em expulsão da comunidade e dos eventos dela.
A relação de condutas. Cada código relaciona os comportamentos que não aceita. Dois exemplos constam dos três: a intimidação deliberada e a interrupção de palestras, que os dois códigos brasileiros qualificam de reiterada e o da PyCon US, de continuada. As relações completas estão nos originais.
O que aparece em só um ou dois dos códigos
A diferença mais prática está no canal de denúncia. A página do código do TDC informa que existe um comitê de ética e conduta para avaliar as violações durante o evento, lista os nove integrantes pelo nome e dá um endereço de e-mail para contato com o comitê. O código da PyCon US dá um e-mail de denúncia, diz quais são as três pessoas que o acompanham e traz o contato individual de cada uma, para o caso de conflito de interesse.
O código do Agile Trends pede que a pessoa aja para interromper a situação ou procure a organização e quem a representa no evento. O texto do código não indica nome, e-mail nem telefone para receber o relato.
Só os dois códigos brasileiros têm regra própria para expositores, patrocinadores, fornecedores e parceiros: eles não podem usar imagens, atividades ou materiais de conteúdo sexual ou discriminatório. No código da PyCon US, a regra sobre linguagem e imagem de teor sexual vale para qualquer espaço da conferência.
Só o código da PyCon US proíbe armas no evento. Ele é também o único dos três que relaciona os espaços em que vale, entre eles os corredores e elevadores que ligam as salas e os comentários feitos na hashtag oficial do evento.
Na avaliação do ConnectWeek, são o nome e o contato de quem recebe o relato que tornam o código aplicável durante o evento: a pessoa assediada precisa saber quem procurar.
Como receber uma denúncia durante o evento
Os textos dos três códigos dizem pouco sobre o que a equipe faz depois de ouvir o relato. A PyCon US publica isso à parte, em inglês, em dois procedimentos no site de políticas da Python Software Foundation: o procedimento para relatar incidentes e o procedimento de resposta. O código do Agile Trends informa que deriva, por adaptações sucessivas, do código dela. O ConnectWeek não reproduz os dois procedimentos. Três assuntos deles servem a quem organiza um evento menor.
Prazos de resposta. Pelo procedimento de resposta, quem relata deve receber por e-mail, em até 24 horas, a confirmação de que o relato chegou. Em até uma semana, a equipe volta a escrever, e esse retorno pode dizer se o caso foi considerado violação do código e que medida foi tomada. Se a análise passar de uma semana, a equipe manda um aviso de andamento.
Sigilo e conflito de interesse. Os relatos são tratados como confidenciais. A equipe não deve dizer à pessoa denunciada quem relatou e anonimiza os detalhes o quanto puder. O procedimento para relatar incidentes avisa que, num episódio entre duas pessoas, a denunciada pode deduzir quem relatou, e pede que o receio de retaliação seja escrito no relato. O integrante da equipe que tem conflito de interesse com um dos envolvidos se afasta da discussão e da decisão, sem precisar explicar o motivo.
Emergência e preparo da equipe. O procedimento para relatar incidentes abre com o caso de perigo físico: a prioridade é conseguir ajuda, por um telefone de atendimento a crises, pelo número não emergencial ou pela polícia. Mais adiante, o texto declara que a PyCon US não está equipada para lidar com emergências. Antes de cada conferência presencial de grande porte, a equipe faz uma reunião obrigatória em que o procedimento é apresentado. Depois do evento, quem atendeu os relatos se reúne com os responsáveis para repassar os incidentes.
Os dois documentos trazem ainda os dados que o relato deve conter, os critérios de avaliação e exemplos de medidas. Esse conteúdo está nos originais.
Na avaliação do ConnectWeek, um evento pequeno aproveita esse desenho com quatro providências: escolher duas ou três pessoas para receber relatos e escrever o nome delas no código; criar um contato que funcione durante o evento e divulgá-lo no crachá e na abertura; identificar a equipe de forma visível; e anotar cada relato, com a hora e a medida tomada.
Os dois códigos brasileiros fazem referência às medidas legais cabíveis, sem detalhar. O da PyCon US diz que a equipe ajuda a pessoa a contatar a segurança do local ou a polícia. O que fazer diante de indício de crime é orientação de advogado.
Dá para adaptar um código pronto?
Os três códigos declaram, no próprio texto, a mesma licença, a Atribuição-CompartilhaIgual 3.0 da Creative Commons, e indicam de onde vieram. Licença Creative Commons é um tipo de licença padronizada em que o autor declara em que condições a obra pode ser copiada e adaptada (a explicação é do ConnectWeek). O código do TDC informa que foi adaptado dos códigos usados pela Wildtech. O código do Agile Trends, publicado em 16 de janeiro de 2014, informa que veio do código da Python Brasil 9, adaptado por sua vez dos textos da Plone Foundation e da PyCon US. O código da PyCon US informa que partiu de um exemplo de política publicado na wiki Geek Feminism, criado pela Ada Initiative e por voluntários, e relaciona outros seis códigos de que aproveitou trechos.
Pelo resumo que a Creative Commons publica, essa licença permite copiar e adaptar o material, inclusive para fim comercial, desde que se dê o crédito, se inclua o link da licença e se indique se houve mudança. Ela exige também que a versão adaptada seja distribuída sob a mesma licença. Os três códigos lidos trazem, no fim, a linha que diz de onde vieram. A página da Creative Commons avisa que a versão 3.0 é antiga.
Existe também um código de uma página publicado como modelo: o Conference Code of Conduct, com versão em português. Ele declara a licença Atribuição 3.0, que pede o crédito e não traz a exigência de manter a mesma licença. O ConnectWeek não percorre aqui o conteúdo dele.
Adaptar não dispensa preencher o que só a sua organização sabe: quem recebe o relato, por qual canal e que medidas o evento se dispõe a tomar.
Onde publicar o código e a quem avisar
O TDC põe o link do código no menu do site, no bloco "Comunidade", e no rodapé da página consultada. O código da PyCon US declara que equipe, participantes, palestrantes, expositores, organizadores e voluntários são obrigados a segui-lo, o que supõe que eles o tenham visto antes. É no site do evento que entram também os dados lidos pelo Google para exibir data e local na busca, como mostra o texto sobre dados estruturados de evento e post no Perfil da Empresa.
Na avaliação do ConnectWeek, o código funciona melhor quando aparece em três momentos. No formulário de inscrição, com uma caixa de concordância. No contrato ou no manual de patrocinadores e expositores, porque os dois códigos brasileiros trazem regra própria para eles e o da PyCon US inclui os expositores. E na abertura do evento, com o canal de denúncia dito em voz alta. Quem organiza a chamada de palestrantes pode pedir a concordância no próprio formulário de proposta.
O código de conduta convive com outras providências de quem recebe público. O texto sobre acessibilidade em evento presencial trata do que prever para pessoas com deficiência. Para quem vai ao evento como expositor, e passa a estar sujeito a essas regras, o guia sobre como transformar uma feira de negócios em reuniões e propostas cobre a preparação comercial.
Fonte: The Developer's Conference (Globalcode)
Perguntas frequentes
Meu evento é obrigado a ter código de conduta?
Os três códigos lidos pelo ConnectWeek, os do The Developer's Conference, do Agile Trends e da PyCon US, não citam lei que obrigue o evento a ter esse documento. Eles registram uma prática: dizer antes o que a organização não aceita e que medidas declara que pode tomar diante de um caso. Saber se alguma norma se aplica ao seu evento é pergunta para advogado.
O que os três códigos de conduta comparados têm em comum?
Três pontos. A regra alcança quem palestra e quem expõe, além da plateia. Quem recebe um pedido para parar deve parar na hora, e a organização pode ir do aviso à retirada do evento sem reembolso. E cada texto relaciona os comportamentos que não aceita, entre eles a intimidação deliberada. Na avaliação do ConnectWeek, o que torna o código aplicável é o nome e o contato de quem recebe o relato, que um dos três não traz.
O código de conduta vale para patrocinadores e expositores?
Nos três documentos lidos, vale para expositores. Os códigos do The Developer's Conference e do Agile Trends têm regra própria para expositores, patrocinadores, fornecedores e parceiros, que não podem usar imagens, atividades ou materiais de conteúdo sexual ou discriminatório. O da PyCon US põe os expositores entre as pessoas obrigadas a seguir o código. Na avaliação do ConnectWeek, convém anexar o texto ao contrato ou ao manual do expositor.
Posso copiar o código de conduta de outro evento?
Os três códigos lidos declaram, no próprio texto, a licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 3.0. Pelo resumo publicado pela Creative Commons, ela permite copiar e adaptar com crédito à origem, link da licença e indicação de que houve mudança, e pede a mesma licença no texto adaptado. Confira a licença do texto que escolher e preencha o que é só seu: quem recebe o relato e por qual canal.
Em quanto tempo a organização deve responder a quem fez uma denúncia?
Os códigos do The Developer's Conference e do Agile Trends não fixam prazo. A referência lida pelo ConnectWeek é o procedimento publicado da PyCon US, conferência sobre a linguagem Python: confirmação do recebimento por e-mail em até 24 horas e retorno a quem relatou em até uma semana, com aviso de andamento se a análise demorar mais. Na avaliação do ConnectWeek, um evento pequeno pode adotar prazos próprios e escrevê-los no código.