Inteligência ArtificialArtigo
Golpe com voz ou vídeo falso contra empresas: o protocolo de verificação antes de pagar
Em resumo
Como funciona o golpe com deepfake do falso diretor e do falso fornecedor, o que o caso Arup ensina, as cinco regras de verificação antes de qualquer pagamento, um checklist para imprimir e o que fazer nas primeiras horas, incluindo o MED do Pix.
Em resumo: no golpe com deepfake, alguém usa voz ou vídeo gerados por inteligência artificial para se passar por um diretor, sócio ou fornecedor e pedir um pagamento urgente ou a troca da conta de recebimento. A defesa que funciona não depende de perceber que a imagem é falsa: depende de uma regra interna que obriga a confirmar todo pedido de dinheiro por um canal que o golpista não controla, com retorno de ligação para número já cadastrado, palavra-código e dupla aprovação acima de um valor. O protocolo reduz o risco, mas nenhum procedimento elimina a fraude; por isso o texto também traz o que fazer nas primeiras horas depois do golpe.
Como o golpe funciona na prática
A fraude com voz ou vídeo sintético é uma versão nova de um golpe antigo, que a polícia americana chama de comprometimento de e-mail corporativo (BEC, na sigla em inglês): o criminoso se faz passar por alguém de confiança para desviar um pagamento. O que a inteligência artificial mudou foi o grau de convencimento. Antes bastava desconfiar de um e-mail com erro de português; hoje o pedido pode chegar numa chamada de vídeo com o rosto e a voz do sócio.
Na pequena e média empresa, o roteiro costuma ter três variações:
- Falso diretor ou sócio: a pessoa do financeiro recebe mensagem, áudio ou chamada de quem parece ser o dono, pedindo um Pix ou uma transferência "para hoje", em sigilo, porque o negócio é confidencial.
- Falso fornecedor: chega um aviso de que o fornecedor "mudou de banco" e as próximas faturas devem ser pagas numa conta nova. Às vezes vem acompanhado de um áudio com a voz conhecida do representante.
- Falso banco ou falso gerente: uma ligação que parece vir da agência pede uma "transferência de segurança" ou uma confirmação de dados.
O ponto comum é a combinação de urgência, sigilo e autoridade. O golpe não ataca o sistema da empresa: ataca a pessoa que tem a senha do banco. Por isso a resposta é de processo, não de tecnologia.
O número de identificação na tela também não prova nada. Em alerta sobre o golpe do falso gerente, a Febraban explicou que os criminosos mascaram o número de origem (o chamado spoofing) para a chamada parecer sair do banco ou da própria agência do cliente. Se o identificador pode ser falsificado, a confirmação tem de partir da empresa, discando ela mesma.
O caso Arup: uma videochamada inteira falsa
O caso mais citado é o da empresa britânica de engenharia Arup. Segundo o South China Morning Post, a polícia de Hong Kong divulgou a fraude em fevereiro de 2024 sem dizer o nome da vítima, e a Arup depois confirmou que era ela. Os fatos relatados pela imprensa:
- um funcionário do escritório de Hong Kong recebeu uma mensagem que parecia ser do diretor financeiro, baseado no Reino Unido, falando de uma transação secreta;
- ele desconfiou no início, mas entrou numa videoconferência em que o diretor financeiro e outros colegas apareciam. Todos eram recriações digitais;
- seguindo as instruções da chamada, fez 15 transferências para cinco contas bancárias ao longo de uma semana de janeiro, no total de HK$ 200 milhões (cerca de US$ 25,6 milhões pela conversão do SCMP; a Construction Briefing arredonda para US$ 25 milhões);
- a fraude só apareceu quando o funcionário falou com a sede em Londres;
- a empresa informou que nenhum sistema interno foi invadido. A polícia local disse que era a primeira vez que via uma videoconferência falsa usada nesse tipo de golpe.
Duas lições valem para qualquer porte de empresa. Primeiro, o funcionário desconfiou e mesmo assim pagou, porque a videochamada pareceu resolver a dúvida: ver o rosto do chefe não é verificação. Segundo, a fraude foi descoberta justamente quando alguém usou um canal independente, o contato com a matriz. Se esse contato fosse obrigatório antes do primeiro pagamento, e não depois do décimo quinto, a história seria outra.
O problema também aparece nas estatísticas oficiais. O relatório anual de 2025 do IC3, o centro de queixas de crimes na internet do FBI, registra, na categoria de comprometimento de e-mail corporativo (BEC), que empresas relataram em 2025 mais de US$ 30 milhões em perdas com casos que envolveram IA, e menciona a clonagem de voz como um dos recursos usados para pedir transferências. A ressalva vem no próprio relatório: há várias táticas de BEC, e nem todas usam IA. O número, portanto, não mede só fraudes com vídeo falso, e sim o conjunto de golpes de e-mail corporativo em que a IA apareceu.
O protocolo de verificação antes de pagar
O protocolo abaixo parte de uma ideia: a confirmação tem de passar por um canal que o golpista não controla. Ela segue a orientação do FBI, que em alerta conjunto de 2022 recomenda confirmar mudanças de pagamento pessoalmente ou por telefone já conhecido, nunca pelo número ou link que veio no próprio pedido.
| Regra | Como aplicar | Contra qual golpe |
|---|---|---|
| Retorno de ligação | Desligue e ligue de volta para o número que já estava no cadastro ou na agenda antes do pedido. Nunca para o número informado na mensagem. | Falso diretor, falso fornecedor, falso gerente |
| Palavra-código | Combine, pessoalmente, uma palavra ou pergunta que só sócios e financeiro conhecem. Não grave em e-mail nem em grupo de mensagem. Troque quando alguém sair da empresa. | Voz ou vídeo clonados |
| Dupla aprovação | Acima de um valor definido pela empresa, o pagamento exige duas pessoas: uma lança, outra aprova, de preferência no próprio banco, com perfis separados. | Pedido urgente a uma pessoa só |
| Conta bancária só muda com rito | Troca de dados bancários de fornecedor nunca é aceita por e-mail, WhatsApp ou áudio. Exige confirmação por telefone cadastrado e registro de quem confirmou. | Falso fornecedor |
| Urgência e sigilo são alerta | Pedido que proíbe falar com outras pessoas é tratado como suspeito por definição. Ninguém é punido por atrasar um pagamento para checar. | Todos |
A dupla aprovação funciona melhor quando está configurada no banco, e não só na política escrita. O texto sobre perfis de usuário e alçadas de aprovação no acesso bancário mostra como separar quem lança de quem aprova. A mesma lógica vale para automações: se a empresa usa um agente de IA que mexe em pagamentos, vale ler como limitar permissões e exigir aprovação humana para o agente.
Exemplo de alçadas (valores hipotéticos)
Uma distribuidora com faturamento médio e três pessoas no financeiro poderia adotar a regra abaixo. Os valores são sugestão para ilustrar o método, sem base legal; cada empresa define os seus conforme o tamanho dos pagamentos habituais.
- até R$ 5 mil, para fornecedor já cadastrado e conta sem alteração: uma aprovação;
- de R$ 5 mil a R$ 30 mil: duas aprovações no banco;
- acima de R$ 30 mil, ou qualquer valor para conta nova ou recém-alterada: duas aprovações mais retorno de ligação para o número cadastrado, registrado com data, hora e nome de quem atendeu.
Repare que a conta nova entra na faixa mais rígida independentemente do valor. É ali que o golpe do falso fornecedor se encaixa: o primeiro pagamento para a conta trocada costuma ser uma fatura comum, sem nada de estranho no valor.
Checklist para imprimir e deixar no financeiro
Antes de pagar qualquer pedido que chegou por mensagem, áudio, e-mail ou chamada:
- O pedido traz urgência, sigilo ou pressão para não consultar ninguém? Se sim, pare.
- Os dados bancários são os mesmos do cadastro? Se mudaram, siga o rito de troca de conta.
- Liguei de volta para o número que já tinha, e não para o que veio no pedido?
- A pessoa respondeu à palavra-código combinada?
- O valor exige segunda aprovação? A segunda pessoa conferiu de forma independente?
- O favorecido no comprovante de pré-visualização do Pix ou da transferência confere com a empresa esperada?
- Registrei quem pediu, quem confirmou, por qual canal e a que horas?
Se qualquer resposta for "não" ou "não sei", o pagamento espera. Vale colar o checklist ao lado do computador de quem opera o banco e repeti-lo no manual interno.
O que fazer se o pagamento já saiu
Tempo é o fator que mais pesa. A ordem sugerida:
- Ligue para o seu banco pelo canal oficial (número do cartão ou do site, não o de uma mensagem) e peça o bloqueio e a contestação da operação.
- Se foi Pix, use o Mecanismo Especial de Devolução (MED). Desde 1º de outubro de 2025 os bancos são obrigados a oferecer no aplicativo o chamado botão de contestação, segundo a Agência Brasil. Atenção: o guia do MED do Banco Central descreve essa obrigação para usuários pessoa física. A empresa contesta pelo aplicativo se o banco oferecer a opção na conta jurídica; se não, pelo canal oficial de atendimento, no mesmo dia.
- Saiba o que o MED 2.0 faz. A versão nova segue o dinheiro além da primeira conta que o recebeu. A obrigatoriedade formal para as instituições começou em 2 de fevereiro de 2026, mas a Resolução BCB nº 546 dispensou a abertura de processo por descumprimento até 10 de maio, segundo o Finsiders Brasil. Em nota de agosto de 2026, reproduzida pela imprensa, o Banco Central informou que o rastreamento em camadas do MED 2.0 está em produção desde 11 de maio de 2026.
- Atenção ao prazo. O FAQ do Banco Central para participantes do Pix (consultado em outubro de 2026) indica que a notificação de fraude pode ser aberta para transações de até 80 dias. Isso é o limite, não a meta: quanto mais tarde, menor a chance de ainda haver saldo para bloquear.
- Registre boletim de ocorrência e guarde tudo: prints das mensagens, áudios, e-mails com cabeçalho, comprovantes e o registro de quem falou com quem.
- Avise o fornecedor ou o diretor verdadeiro pelo canal cadastrado. Se o e-mail de alguém foi invadido, outras empresas podem estar recebendo o mesmo pedido.
- Troque senhas e reveja acessos do e-mail e do banco de quem foi alvo, e cheque se houve redirecionamento automático de e-mails.
O MED não garante a devolução. Se o dinheiro já foi sacado ou espalhado e não houver saldo, a recuperação pode ser parcial ou nenhuma, e o mecanismo não cobre erro de digitação da chave. Para TED e boleto não existe o MED: o caminho é o banco, imediatamente, e o boletim de ocorrência.
Treinamento da equipe: curto, repetido e sem culpa
O protocolo só funciona se a pessoa do financeiro se sentir autorizada a dizer "vou confirmar e te retorno" até para o dono da empresa. Três medidas ajudam:
- O dono assume a regra em público. Ele avisa a equipe que nunca vai pedir pagamento fora do protocolo e que quem checar não será cobrado pela demora.
- Simulação ocasional. De tempos em tempos, um sócio manda um pedido de teste fora do rito para ver se a equipe segue o checklist. Erro na simulação vira conversa, não punição.
- Regra escrita junto com as demais regras de IA. A política de uso de IA da empresa é um bom lugar para registrar que áudio, vídeo ou mensagem não autorizam pagamento sozinhos.
Também vale reduzir o material disponível para o golpista: quanto menos detalhes sobre quem aprova pagamentos e quais fornecedores a empresa usa estiverem expostos publicamente, mais difícil montar um pedido convincente. Nenhuma dessas medidas torna a empresa imune; elas aumentam o número de barreiras que o golpe precisa vencer.
Este texto tem caráter informativo e vale para as regras vigentes em outubro de 2026. Em caso concreto de fraude, procure o seu banco e um advogado.
Comece por aqui Novo no assunto? Leia primeiro inteligência artificial para pequenas empresas, o texto-base desta cobertura.
Fonte: Banco Central do Brasil (FAQ Participantes do Pix)
Perguntas frequentes
Dá para perceber um deepfake de voz ou vídeo só olhando ou ouvindo?
Não com segurança. No caso Arup, de 2024, o funcionário desconfiou do pedido e mesmo assim foi convencido por uma videochamada em que todos os participantes eram recriações digitais. Por isso o protocolo não depende de detectar a falsificação: todo pedido de pagamento é confirmado por um canal que o golpista não controla, como o retorno de ligação para um número já cadastrado.
Ligar de volta para o número que apareceu na tela resolve?
Não. O número de origem pode ser mascarado, como a Febraban alertou ao tratar do golpe do falso gerente. O retorno tem de ser feito para o número que a empresa já tinha no cadastro ou na agenda antes do pedido, discado por quem vai pagar.
Quanto tempo tenho para contestar um Pix feito por golpe?
O FAQ do Banco Central para participantes do Pix, consultado em outubro de 2026, indica que a notificação de fraude pode ser aberta para transações de até 80 dias. Mas a chance de recuperar cai com o tempo, porque a devolução depende de haver saldo nas contas do golpista. O pedido deve ser feito no mesmo dia: o botão de contestação no aplicativo é obrigatório para pessoa física; a empresa usa o aplicativo se o banco oferecer a opção na conta jurídica, ou o canal oficial de atendimento.
O MED devolve o dinheiro de TED ou boleto?
Não. O Mecanismo Especial de Devolução é do Pix. Em TED, boleto ou outra forma de pagamento, a empresa deve avisar o banco imediatamente, pedir a tentativa de bloqueio e registrar boletim de ocorrência.
Qual valor usar para exigir dupla aprovação?
Não há valor legal. A empresa define o limite pelo tamanho dos pagamentos habituais. Uma regra útil, sugerida aqui sem base normativa, é exigir dupla aprovação e retorno de ligação para qualquer pagamento a conta nova ou recém-alterada, seja qual for o valor.